Essência

A verdadeira herança do Reino dos Céus pertence aos pobres de espírito e aos que sofrem perseguição por causa da justiça. Estes não apenas recebem uma promessa futura, mas possuem o Reino no presente, vivendo uma comunhão profunda e contínua com Deus. O espírito necessitado, que nunca se sacia de Deus, é o alvo do olhar e da habitação divina, e somente através dessa dependência e busca constante pelo Senhor é possível experimentar a plenitude da vida espiritual e despertar o amor de Cristo.

O ponto de partida

A palavra se inicia com a leitura de Mateus 5:1-3, onde Jesus, ao ver a multidão, sobe ao monte e ensina seus discípulos sobre as bem-aventuranças. O destaque recai sobre os pobres de espírito, a quem Jesus garante a posse do Reino dos Céus, não como promessa futura, mas como realidade presente. O verso 10 também é citado, ampliando a garantia aos que sofrem perseguição por causa da justiça.

Desenvolvimento da Palavra

A identidade dos pobres de espírito e a garantia do Reino

Jesus declara que os pobres de espírito são bem-aventurados porque deles é o Reino dos Céus. Essa posse não é algo que será, mas já é. A mesma certeza é dada aos que sofrem perseguição por causa da justiça. O Reino é herança, posse e possessão dos que vivem nesse caráter. Os pobres de espírito são aqueles que deixaram tudo para trás, movidos por uma fome e desejo profundo de Deus. São os procurados pelo Senhor, conforme João 4:23, onde o Pai busca adoradores que o adorem em espírito e em verdade.

O pobre de espírito nunca se sacia de Deus; sua necessidade é eterna e só Deus pode satisfazê-la. A obra da carne e as atividades naturais cessam, mas o espírito permanece necessitado, sempre buscando fortalecer o homem interior para que Cristo habite plenamente no coração. Em contraste, quem é rico no espírito não sente essa necessidade tão grande de Deus. A necessidade do homem é do tamanho de Deus, e apenas Ele pode preencher esse vazio.

A habitação de Deus e o tremor diante da Palavra

Isaías 57:15 revela que Deus habita com o contrito e abatido de espírito, vivificando o coração dos necessitados. Não se trata de um espírito morto, mas de um espírito que sente sede e desejo de Deus. Isaías 66 reforça que Deus olha para o pobre e abatido de espírito, aquele que treme diante de Sua palavra. Existem espíritos arrogantes, altivos e pobres; apenas o espírito pobre alcança comunhão mais profunda com Deus e uma vida mais viva no Reino.

O espírito precisa da grandeza do Espírito de Deus para ser fortalecido. É necessário buscar o Senhor, abandonar as atividades da alma, carne e vontade própria, e buscar a presença de Deus. Os pobres de espírito são os que buscam o Senhor de todo o coração, nunca se sentindo saciados. Cristo está para voltar, mas muitos não demonstram interesse por Ele, permanecendo satisfeitos com as atividades do mundo e da carne. Jovens fracos na fé são assim porque não têm sede de Deus, não adoram, não buscam o Senhor. Somente Deus pode fortalecer o espírito, e pelo Espírito Santo é possível mortificar as obras da carne e viver.

A carne, embora pareça amiga, é inimiga mortal. A ilustração de Saúl e os amalequitas mostra como a carne pode se tornar uma parceria perigosa. Saúl manteve o rei amalequita vivo, simbolizando a aliança com a carne, mas Davi, vivendo no espírito, não aceitou essa parceria. No Reino de Deus, não há espaço para a carne; é preciso estar com o espírito dependente e necessitado de Deus.

O chamado à comunhão profunda e a resposta ao Senhor

Quando perdemos o Senhor, é necessário buscar, examinar se o espírito está abatido e se o coração tem sede de Deus. A sulamita, em Cantares 5:2, dormia, mas seu coração velava, mostrando que mesmo sem atividade na carne ou no mundo, o espírito ansiava por comunhão. O Senhor chama para uma comunhão mais profunda, mas muitas vezes o espírito está saciado, acomodado com as bênçãos já recebidas.

O chamado do Senhor pode ser para passar pela aflição, vergonha e sofrimento, não apenas pela felicidade. Esse é o teste para ver quem é realmente esposa de Cristo. Os que buscam apenas as bênçãos não ganham o próprio Senhor; é preciso desejar o Senhor acima de tudo. Como dizia Paul Oxen, não se prega felicidade, mas Cristo, ensinando a renunciar tudo por Ele.

Quando não atendemos ao chamado, como a sulamita no verso 6, percebemos o erro e sentimos a ausência do Senhor. A maior disciplina de Deus é o silêncio, quando clamamos e Ele não responde. O Senhor é misericordioso e ao menor sentimento de entrega, Ele se apresenta, pois nos ama. Mas é necessário despertar uma apreciação profunda no coração dEle, como João, o discípulo a quem Jesus amava, reclinado no seio de Jesus (João 13:23). O amor de Cristo pela esposa é construído após a salvação, por meio de um relacionamento de entrega e pobreza de espírito.

Em Cantares 6:3, a sulamita declara: “Eu sou do meu amado e o meu amado é meu”, mostrando uma entrega completa e transformação de vida. O objetivo não é simplesmente cantar ou ver uns aos outros, mas ver Cristo e saciar o espírito somente dEle. A herança do Reino é de quem foi recebido em casamento pelo Senhor, e a entrega total é o caminho para andar com Cristo em qualquer situação.

Para guardar

  • O Reino dos Céus pertence aos pobres de espírito e aos que sofrem perseguição por causa da justiça.
  • Deus habita com o contrito e abatido de espírito, que treme diante da Sua palavra.
  • A entrega completa e a busca constante pelo Senhor despertam o amor de Cristo e a comunhão profunda com Ele.