Essência
A jornada do apóstolo João revela que o discipulado cristão vai além do conhecimento bíblico: trata-se de experimentar a vida e o Espírito por trás das Escrituras. O chamado de Deus é para uma intimidade profunda, comparada a um matrimônio, onde a pureza, a simplicidade e a transformação interior são essenciais. O Senhor prepara um povo para manifestar Sua glória, e isso exige um coração disposto a ser trabalhado, tornando-se um odre novo capaz de receber o vinho novo do gozo celestial.
O ponto de partida
A reflexão parte do modo como temas centrais se repetem e se entrelaçam no evangelho de João, como amor, luz e vida. O apóstolo, treinado por Jesus, aprendeu a “costurar” espiritualmente esses elementos, conduzindo o povo de Deus ao testemunho vivo da oração de Jesus em João 17, que permanece vigente diante do Pai e aguarda seu pleno cumprimento.
Desenvolvimento da Palavra
O discipulado de João: matrimônio, intimidade e revelação
O discipulado de João é comparado ao processo de uma jovem que busca um marido fiel, puro e verdadeiro. O primeiro sinal que marcou João foi o casamento em Caná, onde Jesus operou um milagre, indicando o caminho do relacionamento íntimo com o Senhor. João não apenas compreendeu as Escrituras, mas experimentou o Espírito e a vida nelas contidas. Ele alcançou uma intimidade tão profunda que pôde “apalpar o Verbo da vida”, como descreve em sua carta, resultado de um relacionamento construído ao longo do tempo, diferente de Tomé, que buscou um toque físico sem ter desenvolvido essa proximidade.
O livro de João é apresentado como um caminho de vida e gozo celestial, destinado especialmente à igreja de hoje. O discipulado é visto como uma preparação para o matrimônio espiritual, onde o Cordeiro de Deus tira o pecado do mundo, tornando-se o Salvador do corpo, como ensina Efésios. João, ao seguir Jesus, demonstrou o desejo de morar com o Senhor, algo reservado àqueles que anseiam ser esposa, compartilhando de tudo o que Ele é e tem. O texto de Efésios reforça que Cristo amou a igreja e se entregou por ela para apresentá-la gloriosa, sem mácula, santa e irrepreensível.
A experiência de João ao presenciar o lado de Jesus sendo aberto na cruz, de onde saíram sangue e água, é comparada à formação da mulher a partir do lado de Adão, indicando a edificação da igreja. Jesus trabalhou com os discípulos para formar um protótipo de igreja, um testemunho vivo ao mundo, que se ampliou após o Pentecostes, incluindo gentios antes rejeitados pela religião. Todos são chamados para as bodas do Cordeiro, mas é necessário permitir que o Senhor trate o caráter e vista cada um com as vestes nupciais adequadas.
Chamados, escolhidos e o tratamento do odre
A parábola das bodas em Mateus 22 ilustra que muitos são chamados, mas poucos escolhidos. O critério para ser escolhido é ser revestido de Cristo, permitindo que Ele cubra as vergonhas e transforme o interior. O exemplo de Ester, que foi escolhida por sua simplicidade e pureza, sem recorrer a adornos externos, mostra que Deus prepara a noiva com zelo, como Paulo descreve em 2 Coríntios 11. A pureza e simplicidade devidas a Cristo são raras, mas essenciais para quem deseja ser apresentado como virgem pura ao Senhor.
O processo de preparação envolve correr a carreira completa do discipulado, como João, que sempre aponta para o relacionamento de esposo e esposa entre Cristo e a igreja. O amigo do esposo, como João Batista, alegra-se com a voz do esposo, reconhecendo que é necessário que Cristo cresça e o discípulo diminua. Essa diminuição é fundamental para que o Senhor trabalhe o odre, tornando-o apto a receber o vinho novo.
O ensino sobre odres novos e vinho novo, presente em Marcos 2, revela que estruturas religiosas rígidas impedem a recepção da novidade de Deus. O odre representa a própria pessoa, que precisa ser tratada, amolecida e renovada para receber o gozo da intimidade com Deus. O vinho novo é o resultado desse relacionamento, e Jesus deseja que o gozo Dele permaneça nos discípulos, tornando-os ministros abençoados e fortalecidos pela alegria do Senhor.
Transformação, serviço e o fim almejado
A transformação de João é evidenciada ao comparar seu temperamento inicial, rígido e impulsivo, com o homem cheio de amor, luz e vida que se tornou. O tratamento do odre envolve passar por dificuldades, como o couro que é amolecido na fumaça, preparando-se para receber a revelação divina. João e Tiago, antes prontos a agir com dureza, foram transformados pelo Senhor, que os ensinou sobre serviço e humildade: “entre vós não será assim”, pois o maior deve ser servo de todos, seguindo o exemplo de Jesus, que veio para servir e dar a vida.
João, mesmo tendo sofrido perseguição, martírio e exílio, permaneceu como companheiro na aflição, identificando-se com Cristo e com a igreja em suas tribulações. O verdadeiro companheiro é aquele que permanece ao lado do outro na aflição, honrando o Senhor e os que O temem. O exemplo de João mostra que a mudança do odre é possível, tornando-se transparente, cheio de luz e vida, capaz de manifestar a glória de Deus.
A sabedoria está em entender e atentar para o próprio fim, como ensina Deuteronômio 32 e Lamentações 1. Jerusalém foi destruída porque não atentou para o seu fim, mas o propósito de Deus é conduzir cada um à revelação da vida nova, do vinho novo e do odre novo, vivendo sempre em novidade de espírito e vida.
Para guardar
- O discipulado verdadeiro conduz à intimidade e transformação interior, não apenas ao conhecimento bíblico.
- Ser escolhido para as bodas do Cordeiro exige pureza, simplicidade e permitir o tratamento do Senhor.
- O vinho novo do gozo espiritual só é recebido por quem se torna um odre novo, flexível e renovado.